Apresentação do livro "Manual de Instintos Assassinos" de Eduardo Roseira

Data de Publicação29 abril 2015, quarta-feira | publicado por:Paula Cristina Castelo Branco

 

PREFÁCIO

 

Eduardo Roseira propõe-nos uma viagem dantesca e, ao mesmo tempo, paradoxalmente, de uma humanidade tocante.

         O autor, julgo que fruto da profissão que abraçou, viveu grandes dramas e as grandes redenções dos seres humanos, tocou o abismo e o sublime, afrontou os mistérios últimos.

         O poemário que ora publica é disso exemplo. A escrita é descarnada, quase mórbida, dissecada e dissecante. Todavia, como em tudo na existência das palavras e das pessoas, esta é somente uma primeira aparência quase fenoménica kantiana.

         Perscrutado o sentido e mensurada cada sílaba, irrompe por entre os versos a beleza de Eros, manifestada através da forma mais sublime que, para alguns, ela comporta: a do amor transmutado em morte. Física. O post scriptum erigido em post mortem assim o prova à prova de qualquer in dubio pro reo.

         Embarcar na tergiversação proposta pelo poeta implica aceitar o risco de nos revermos em actos brutais, em ter consciência que o crime é dos actos mais humanos que existem e que da sua condição nenhum de nós se acha arredado. Estudos criminológicos indicam isso mesmo: à pergunta de se alguém se considera delinquente, a resposta é um rotundo e definitivo “não”. Porém, quando se descrevem acções ou omissões a que o Direito (não necessariamente Penal) associa uma sanção, o interlocutor vai desaparecendo do alto do pedestal da licitude e admite apear-se ao nível so solo onde todos moramos ou deveríamos morar.

 

         Li, assim, este “Manual de Instintos…assassinos!” também como um exercício de humildade de alguém que, maduro, adquiriu já consciência da limitação humana e a interpreta como a mais sublime das imperfeições. Amamos o humano porque ele é imperfeito. O acto de amar, por definição profundamente irracional, é das imperfeições mais bem conseguidas que qualquer arquitecto universal esboçou.

Ainda que seja “à lei da bala”, Eduardo Roseira surpreende o leitor com a verificação de que crime, amor, morte e redenção são encadeamentos lógicos (im)prováveis.

 

         Quem nos recorda estas máximas merece, justamente, a nossa gratidão!

 

eduardo roseira – Nasceu no Bonfim, Porto em 20 de Fevereiro de 1951.

Foto Jornalista, poeta, viveu entre 1962 e 1974, em Moçambique, onde foi funcionário da Polícia Judiciária, antes de cumprir o Serviço Militar Obrigatório. Reside actualmente em Vila Nova de Gaia, na Beira Rio, em Santa Marinha.

O seu hobby principal é o de Animador da Palavra (não gosta de ser chamado declamador), com o seu espectáculo “Palavras Vivas – stand-up Poetry”.

 

Obras publicadas: a colheita íntima (Gaia, 2003); o sorriso de deus (Gaia, 2005); Palavras Vivas –stand-up Poetry (Gaia, 2012), todos em poesia e sob a chancela do lavra…Boletim de Poesia, publicação que fundou e dirigiu entre 2001 e 2014. Está representado em diversas antologias e colectâneas de poesia, das quais se destaca a Antologia da Memória Poética da Guerra Colonial, (Edições Afrontamento, Lisboa, 2011, Org. Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Veccchi) a convite do CES – Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.